SCHUMANN E SUAS IMAGENS

Há tempos e com grandes promessas para o futuro assistimos à emergência de manifestações musicais associadas a imagens. É cada vez mais frequente ver artistas que pensam para a visão do espectador com tanto apreço quanto para sua audição.

As aplicações desse dualismo imagem e música foram apresentadas no concerto-instalação Dobra Schumanniana, que aconteceu no Sesc Pompeia, em São Paulo, entre os dias 18 e 22 de abril deste ano.

Pensar a instalação como um evento essencialmente do grupo da multiplicidade foi possível graças à escolha do compositor, Robert Schumann, cujas obras são carregadas deste sentido múltiplo, do duplo que é característico do movimento romântico ao qual pertence.

 

Trata-se das composições de Schumann sendo interpretadas a quatro mãos por Heloisa e Amilcar Zani, dois pesquisadores e professores da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP, cujos interesses convergem à Música de Câmara para piano; dirigidos por Branca de Oliveira, artista e pesquisadora também da ECA-USP, doutorada em Poéticas Visuais, e que estuda a multiplicidade e o processo criativo em vídeos digitais.

A instalação consiste da exibição de vídeos já editados e vídeos em tempo real do piano que são consoantes com a estética da música de Schumann e sua singular abrangência. As imagens, captadas na Alemanha, onde estão seguras as obras do compositor, são projetadas  na tela especial, elevada e circular que envolve o piano e nas paredes do local, formando o ponto de vista de quem viaja a um trem.

No entanto, a relação do espectador e a qualidade da pesquisa para o projeto é que configuram o interesse de Multimeios em um evento como este. Primeiramente, quanto à qualidade, há a adaptação da obra de Schumann para quatro mãos, o que culmina numa obra nova e original da dupla Heloisa e Amilcar Zani. Em seguida, as imagens: gravadas na Alemanha, são editadas em conjunto com outras imagens, vindas inclusive da internet, segundo Branca de Oliveira.

Enfim, o espectador está presente em uma novo tipo de imersão acústica, completamente influenciado pelos locais escolhidos para as imagens e pela disposição do espaço em arena. Além disso, as imagens guiam os sentidos e as interpretações de quem as vê, bem como sensibilizam para o choque ou para a alegria, a depender dos movimentos da obra.

Não há como se isentar de riscos quando algo acontece ao vivo, e a instalação, então, teve erros. Em dados momentos, as imagens perdiam a sua conexão com a poética musical e entravam em loop, isto ocasionado pelo tempo de execução da obra ter extrapolado o previsto. E o fato de as imagens servirem de guia ao entendimento de um compositor já tão estudado é um aspecto da instalação que requer um ponto de vista crítico do espectador.

Hoje a estética da contemporaneidade é interdisciplinar, e está representada em Robert Schumann, o que prova qual atual e visionária é a obra deste músico. O objetivo da Dobra Schumanniana, segundo Branca de Oliveira, era amplificar esta relação e inovar: “as obras sempre reverberam outras obras, e a ideia era criar algo novo”.

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