“Um dia na vida” de Eduardo Coutinho

Quando o barulho perturba o silêncio. 

Você realmente presta atenção na TV? Você leva a televisão a sério? São essas as questões que emergem após o filme “Um dia na vida” realizado por Eduardo Coutinho, que foi exibido na PUC-SP no dia 27. 04. 2011.  O filme em questão é, na verdade, uma condensação de 19h de gravação da TV aberta brasileira em 90 minutos de filme. Por questões autorais as poucas exibições que houveram do filme foram supervisionadas pelo diretor.

A estrutura básica da televisão brasileira é exposta no filme:  os programas educacionais, pouco efetivos  –educativamente falando- no inicio da programação; alguns programas infantis, que se resumem a desenhos animados e uma massiva publicidade para o publico infantil; os programas para o publico feminino como Márcia e Ana Maria Braga, os sanguinários “jornais” vespertinos exemplificados pelo programa do Wagner Montes; os programas religiosos; televendas; novelas; propaganda política e por ai vai, é um apanhado tragicômico da televisão brasileira.

Existem duas vias para se analisar o material exibido pelo Coutinho, uma delas é o gesto autoral da remontagem  feita pelo cineasta, a ressignificação do produto televisivo ao ser transposto para o cinema, ou seja, uma via que lida com a estética do filme, e a outra via que é na verdade o alvo do Coutinho ao fazer essa montagem que é voltada pra critica da televisão brasileira.

Na via estética, um ponto importante a se enfocar é da ressignificação do material ao ser levado para o cinema.  “A televisão grita, enquanto que o cinema é o espaço do silêncio”  observou Jorge Furtado na primeira exibição do filme em 2010. Ou seja, habitualmente lidamos com o cinema sendo o espaço do silencio, da analise, da concentração. Em contrapartida, a televisão é tida como o espaço do barulho, do grito, da dispersão.  Quando se tira a TV de seu lugar e especifico e lesado de analise, para um lugar a priori analítico, em que o zapping é feito pelo autor-montador e não por nós, nesse momento sobressai a critica.

O espaço do cinema e o espaço da televisão são colocados em um embate, em que não se pode escapar da reação de choque,  o mesmo choque imposto por dadaístas ao fazerem seus “ready-mades”. Para os dadaístas ao se transpor – para se usar o exemplo o célebre duchampiano – um mictório do seu espaço habitual, e colocá-lo no espaço de uma obra de arte, causa o choque necessário pra se começar a se reformular o conceito de arte.

“Com efeito, limita-se a destacar, o objeto do contexto que lhe é habitual, e no qual atende uma função prática: desambienta-o, desvia-o e o conduz por uma via morta. Retirando-o de um contexto em que, por serem todas as coisas utilitárias nada pode ser estético, situa-o numa dimensão na qual, nada sendo utilitário, tudo pode ser estético” (ARGAN, p.359)

Por que não podemos dizer o filme de Coutinho nessa transposição da TV para o cinema,  retirou a TV de seu contexto habitual e “utilitária”e a levou para a dimensão estética e analítica? Por que não podemos dizer que o movimento feito pelo diretor se fez do choque causado, para propor uma reformulação do conceito de televisão?

Essa questão, nos leva para a segunda via de analise que é a da critica televisiva.  Em “A televisão levada a sério” Arlindo Machado propõe:

“A impressão que se tem é de que, na televisão, não existe nada além do trivial. Por mais que pareçam avançar os estudos sobre esse meio, permanece ainda muito amplamente disseminada a idéia antiga que a televisão é um “serviço”, sistema de difusão, fluxo de programação, ou, numa acepção mais “integrada”, produção de mercado (…)Eis por que as atenções quase nunca se voltam para o conjunto dos trabalhos audiovisuais que a televisão efetivamente produz e a que os espectadores efetivamente assistem, mas para a estrutura genérica do meio.” (MACHADO, p.16)

Arlindo questiona o estudo acumulado sobre a televisão (e revisita o pessimismo Adorniano e o positivismo Mcluhaniano) como generalizantes e aponta para a necessidade da analise dos programas efetivamente produzidos , para se produzir um conhecimento que verdadeiramente se intenta para a modificação do status quo da televisão.

A obra de Coutinho de se move exatemente nessa direção critica e prática. Não estamos falando de um documentário que procura o campo teórico de crtica da televisão, estamos falando de um filme, que na verdade é somente uma remontagem fílmica e factual dos programas exibidos em rede nacional. A critica existe intrinsecamente no material televisivo.

Bibliografia:

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna: Do Iluminismo aos movimentos contemporâneos. Tradução: Denise Bottmann e Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992

MACHADO, Arlindo. A Televisão levada a sério. São Paulo: SENAC, 2000

COUTINHO, Eduardo. Um dia na vida. Rio de Janeiro: 2009

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