Angeli, nada bonitinho

Terminou no domingo passado no Itaú Cultural a exposição “Ocupação Angeli”. A exposição trouxe um panorama da obra de um dos maiores quadrinistas brasileiros, Arnaldo Angeli Filho (Angeli), de forma muito cativante: reproduzindo o que seria o ateliê do artista. Gavetas com quadrinhos dentro, uma mesa de desenho com luminária, uma geladeira, uma janela que dá para uma cidade desenhada e até uma sala do sexo com cortina de banho transformaram o espaço de exposição também em um espaço de criação, um espaço que emerge em si o mundo de Angeli.

  

Reunindo desde os primeiros trabalhos do cartunista até os mais recentes, a exposição deu forma à obra de Angeli, sendo quase como um tributo ao gênio. Com vídeos com entrevistas dele relacionadas a cada “seção”, rascunhos, desenhos só no lápis, tiras, capas, posters, histórias mais longas, maquetes de uma animação com massinha, fotonovelas, charges, uma animação, estudos, capas de vinis e raridades, conhecemos a diversidade de seu trabalho ao longo do tempo com certa profundidade. Entendemos melhor como se desenvolveu sua carreira e fazer criativo e qual a linguagem e visão do quadrinista.

  

A exposição foi exemplo em organização de espaço, que era simplesmente incrível: entrava-se em um universo de Angeli ao adentrar o ambiente, como também em conteúdo, a obra de Angeli abraçada por inteira. Quem não conhecia o artista teve a oportunidade de conhecer e quem já conhecia pode conhecer mais a fundo – em sua amplitude e complexidade, mais de sua obra e mais de sua vida. A exposição grita para a importância e relevância das histórias em quadrinhos e, mais especificamente, do quadrinho nacional e underground.

O artista, ao lado de Glauco e Laerte, foi um dos percussores do quadrinho underground no Brasil logo após o fim da ditadura. Inspirados pelos quadrinistas underground americanos, como o soberbo Robert Crumb, esse trio deu nova cara ao quadrinho nacional trazendo o mundo alternativo com todas suas subversões e perversões para seus trabalhos. Os três fundaram a revista Chiclete com Banana, referência no quadrinho brasileiro. Os personagens clássicos de Angeli, como Bob Cuspe, Rê Bordosa e os Skrotinhos traziam figuras nem um pouco corretas nem bonitinhas da vida urbana de São Paulo representadas de forma sarcástica, critica e cômica.

trecho de video da exposição

Angeli abriu caminho para um múltiplo universo de quadrinhos que viria depois. Suas temáticas que envolvem política, violência, sexo, morte, cultura urbana e alternativa no geral de forma divertida, irônica e bastante crítica trouxeram um sopro de vitalidade na criação nacional.  O gênio meteu a porrada nos bons costumes com seu trabalho e renovou os quadrinhos como arte. Sua importância para a HQ no Brasil é inquestionável, é um modelo de artista original e fantástico que veio para quebrar com padrões. Indispensável conhecer sua obra para qualquer um – seja para a inspiração ou para a reflexão. Seu trabalho já tomou muitas formas e explorou diversos temas, sendo sempre contestador e, muitas vezes, altamente politizado acerca da realidade. Segue produzindo até hoje, charges políticas, tiras e outros trabalhos.

São poucas exposições que homenageiam um ícone genial da HQ nacional assim. Acredito que o número de exposições de quadrinhos tenha crescido e que essa arte aqui no Brasil tem ganhado mais espaço e respeito. Mas é um caminho longo para que a nona arte feita aqui ganhe o espaço que merece e que sua relevância seja enxergada como deveria. As histórias em quadrinhos são uma arte muito rica em conteúdo e linguagem e as HQs nacionais tem um potencial em qualidade que não se vê em muitos outros lugares no mundo. Infelizmente, isso não é reconhecido como deveria. Exposições como a “Ocupação Angeli” trabalham justamente para dar mais espaço ao quadrinho, iniciativas desse tipo devem ser aplaudidas e incentivadas. Que venham mais ocupações!

Animação que é um falso documentário que lida com Angeli e seu universo tratando da morte de Rê Bordoa, uma de suas personagens mais famosas. A exposição apresentou maquetes com alguns bonecos e cenários da animação.

Fotos: Gabriela Leite

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