Espetacular Adaptação

Não é fácil uma adaptação de quadrinhos de super herói para o cinema ser bem sucedida. Os diretores hollywoodianos se veem em um beco quase sem saída quando precisam fazer algo que caia tanto no gosto do grande público e seja comercial como no gosto dos fanáticos por quadrinhos. Tudo porque os fãs dos quadrinhos heroicos da Marvel e DC são muito exigentes e pouco flexíveis quando o assunto é adaptação de seus ídolos para a telona. Diante desse desafio, muitos filmes acabam não dando certo e sendo um completo fracasso – exemplos não faltam.

Respeitar e ser fiel ao extremo aos quadrinhos como alguns fãs radicais desejam é complicado. Transpor um mundo de quadrinhos exatamente como ele é para duas horas de película não é humanamente possível – e nem certo. Adaptar é adaptar e não copiar, é criar algo novo baseado em algo já existente. Partindo desse pressuposto, muitas vezes originalidade em uma adaptação pode ser a chave para o seu sucesso. Assim como a essência dos personagens e de seu universo, o formato para o qual a adaptação é feita também deve ser respeitado e entendido. É partindo da lógica do cinema que se cria qualquer produção nessa mídia. Uma mensagem só funciona se for adequada ao seu meio, por mais que ela seja adaptação da mensagem de outro meio.

Um filme que faz isso com inteligência é “O Espetacular Homem Aranha” do diretor Marc Webb. Ele é fiel e original na medida certa, criando uma narrativa envolvente com trama e personagens interessantes. A franquia anterior do Homem Aranha foi para o buraco com o seu terceiro filme, apesar do sucesso dos dois primeiros. Desafio maior do que adaptar um quadrinho é recomeçar a contar uma história já contada no cinema – e já bem contada. O primeiro filme do Homem Aranha, de Sam Raimi, foi uma adaptação primorosa e adorada por todos. Isso dificultou muito o trabalho de Webb, que lidou com isso como poucos diretores conseguiriam.

A chave desse novo Homem Aranha está em algumas coisas. O roteiro traz uma trama coerente em que os acontecimentos do filme se entrelaçam e se fazem interdependentes e lógicos no contexto do filme. Isso torna não só a narrativa fluida e instigante como dá o gancho e a vontade de assistir o filme seguinte. O filme reconta a origem do herói, como Peter Parker torna-se o Homem Aranha, já contada por Sam Raimi. O diretor Marc Webb brinca muito bem com a adaptação – sendo original justamente onde o filme de Raimi foi fiel ao gibi e fiel onde o outro filme buscou ser original.

Evitando a repetição do que já foi filmado, Webb foge de clichês e ícones clássicos dos quais Sam Raimi não pôde e não devia fugir – como o editor J. Jonah Jameson, que não aparece no novo filme. O diretor também traz elementos novos e é mais fiel em outros aspectos, como ao substituir Mary Jane por Gwen Stacy, namorada bem mais clássica e antiga de Peter Parker nos gibis. Dessa maneira, temos ali o Homem Aranha do quadrinho e ao mesmo tempo um novo Homem Aranha, que não copia nem os quadrinhos e nem a franquia anterior – é original e ao mesmo tempo clássico.

Para completar, esse Homem Aranha é mais humano. Ele não vira herói da noite para o dia como o anterior. Peter é muito menos heroico e mais atrapalhado com seus poderes e confuso quanto às suas responsabilidades. Marc Webb traz um Aranha muito atual e muito real em uma trama de duas horas e meia que não cansa um segundo. É novo sem deixar de ser Homem Aranha. Um exemplo em adaptação. Imperdível.

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